Natal chegando… Quero deixar aqui uma dica de livro muito especial para as famílias: “Manoel, o sonho e o vaga-lume”, da Cepe Editora. É um livro infantil, mas que deve ser lido por todos os pais, pois traz uma importante reflexão sobre a falta de tempo nos dias atuais e a importância do brincar na infância.
Escrito por Raquel Trindade e ilustrado por Veridiana Scarpelli, o livro conta a história de Manoel, um menino que vive em meio a uma rotina cheia de compromissos. Ele acorda às 6h e logo vai para a escola. Às 12h40 vai para a casa de dona Alice e fica por lá até às 19h, quando seu pai chega para buscá-lo. Aí vai para a sua casa, janta e dorme.
Durante o tempo que passa na casa de dona Alice, Manoel faz os deveres de casa, assiste TV, mas não tem com quem brincar… Fica horas na janela vendo o tempo passar. Mas um dia, tudo mudou: uma borboleta aparece para alterar aquela rotina sem vida. Manoel fica tão encantado, que adormece e aí a história começa…
A borboleta se torna uma fada com poderes de criar o que quiser. Ao acordar, Manoel se lembra de uma tinta guardada em sua casa e decide pintar aquela borboleta. Seu pai não entende nada.. Empolgado, Manoel conta o seu sonho e o pai logo trata de dizer que fadas não existem… Um pai, como muitos dos dias atuais, que, devido à correria do dia a dia, deixou de acreditar em sonhos. Mas Manoel não vai desistir fácil! Ele acredita que seus sonhos podem sim se tornar reais e começa a pintar tudo o que deseja: óculos novos para o pai, sorvete de baunilha, amigo para brincar… E aí, será que ele vai conseguir? E será que seu pai vai acreditar nessa fantasia?
Tem que ler o livro para saber! Mas posso dizer que é uma história que vai encantar pais e filhos! Como presente de Natal, deixo aqui uma reflexão para todos os pais: vivemos em um mundo cheio de barulhos, cheio de compromissos, cheio de falta de tempo… E acabamos, sem perceber, passando isso para as nossas crianças. É preciso dedicar tempo para elas! É preciso brincar, ler um livro, sair para passear sem pressa, estar junto sem se preocupar com o toque do celular… As crianças precisam de tempo para brincar! É claro que terão compromissos (escola, esporte, etc.), mas o brincar é fundamental! É através das brincadeiras que a criança se desenvolve, que aprende palavras e que transforma sonhos em realidade. E mais: nós, adultos, precisamos de tempo para voltar a sonhar!
Conversei com a Raquel Trindade, autora do livro, para conhecer um pouco mais dessa história. Confira e se encante com o mundo do Manoel!

Raquel Trindade
CANAL INFANTIL – Como surgiu a ideia de escrever o livro?
RAQUEL TRINDADE – Eu sou assistente social de formação, e, mais recentemente arteterapeuta e psicoterapeuta de abordagem junguiana. Durante essa transição de carreira fui me dando conta da minha antiga paixão pela literatura, e com ela, fui levada a refletir sobre as questões que atravessam a infância e a adolescência não somente a minha, mas de tantos de nós.
Foi então, que em 20222 eu lancei meu primeiro livro, também do gênero infantojuvenil, que se chama o Cisne e o Espelho. Nessa história eu me debrucei sobre questões emocionais que eu vivi na minha adolescência a partir de uma releitura do conto de fadas O Patinho Feio.
Um pouco depois de escrever essa história, ainda durante a Pandemia, eu escrevi alguns outros contos, um deles é o Manoel, o Sonho e o Vagalume. O intuito era escrever narrativas que se aproximassem dos contos da tradição oral e ao mesmo tempo abordassem questões contemporâneas.
A história do Manoel surgiu a partir de uma necessidade pessoal de abordar o tema do sonho seja ele onírico e/ou enquanto um desejo de viver algo. Nesse sentido, fui tocada pela seguinte pergunta: temos conseguido escutar os nossos sonhos, apesar da realidade muitas vezes dura, cinzenta e assoberbada da vida adulta nesse modelo de sociedade? Esse questionamento me levou até a minha infância, pois é na criança que encontramos a coragem para sonhar.
Quando criança, eu era muito imaginativa e sonhadora, mas o meu contexto social e familiar muitas vezes não possibilitou um solo fértil para a imaginação sustentar o potencial de criar. Assim, quando eu quero criar algo novo, eu penso nessa criança que eu fui e busco dar a ela essa oportunidade, de ser imaginativa e criadora.
Na história do Manoel, é o adulto, o pai do personagem, que retoma o seu caminho, a partir da escuta do sonho da criança (o Manoel). A mensagem do livro é múltipla: por um lado as crianças precisam de um espaço seguro para criar, sonhar e brincar. Nesse sentido, a narrativa denuncia os espaços e contextos sociais em que as crianças são cerceadas da experiencia de uma infância saudável, como muitas vezes ocorre nas grandes cidades. Por outra perspectiva, fala da importância do adulto escutar a sua criança que sonha como forma de se voltar para si mesmo e questionar alguns condicionamentos sociais e culturais. E, ainda, em por um ângulo maior, a história de Manoel nos convida a refletir como que a mãe-natureza pode acolher e nutrir nossos sonhos, em detrimento da vida que se forma em espaços em que quase não há mais a sua presença, o que torna a vida mais estéril para os sonhos e, consequentemente, em muitos aspectos, mais adoecedora.
Dito isto, eu gosto de apresentar a história do livro assim: Era uma vez uma criança que vivia em uma casa rodeada por uma cobra de vidro, até o dia em que um adulto lhe disse que se tratava de uma enseada do rio. “Acho que o nome empobreceu a imagem”, concluiu Manoel de Barros em seu poema O Rio que Fazia uma Volta. É baseado nessa poesia que este livro é um apelo à imaginação criativa. A história é um convite às “cobras de vidros” e outras metáforas que desde sempre sustentam a vida com olhar poético e associações repletas de significados. São imagens que brotam como uma flor que irrompe no asfalto.
Manoel é uma criança cheia de imaginação que, espontaneamente, tece significados mágicos aos acontecimentos na rotina do bairro acinzentado que mora com o seu pai, na periferia do Rio de Janeiro. Mas o seu pai, querendo o proteger da fantasia, está sempre interrompendo suas divagações com enseadas, conceitos e “nãos”. Até que um dia, um evento inesperado muda completamente essa relação.
CANAL INFANTIL – Para qual idade o livro é indicado?
RAQUEL TRINDADE – De 5 a 12 anos.
CANAL INFANTIL – Muitos pais colocam os filhos em inúmeras atividades além da escola. Como você vê isso?
RAQUEL TRINDADE – Observo com preocupação. É importante possibilitar a criança o ócio imaginativo. Por meio da fantasia, a criança cria brincadeiras, desenvolve a sua criatividade e elabora conteúdos vivenciados, muitas das vezes difíceis de serem elaborados ou expressados de outras formas.
CANAL INFANTIL – Qual a importância do tempo para brincar?
RAQUEL TRINDADE – O tempo para brincar é uma espécie de solo fértil para o exercício da imaginação. Por meio dela, a criança pode acessar o universo criativo e simbólico, que são fundamentais para um desenvolvimento saudável. É por meio da brincadeira que a criança pode imaginar narrativas, simbolizar suas experiencias, experimentar formas de ser. E, com isso, deixar florescer o seu universo interno para, mais tarde, conseguir simbolizar, comunicar e transformar muitos destes conteúdos.
Se a criança não brinca, ou se brinca com recursos que empobrecem a capacidade de imaginar, como o uso indevido ou excessivo de celular, ela perde a oportunidade de recriar a realidade a partir da sua imaginação. Essa “castração da imaginação” pode prejudicar a criança no seu desenvolvimento psíquico e cognitivo.
CANAL INFANTIL – Deixe uma mensagem para os pais.
RAQUEL TRINDADE – Todos nós temos a criança que fomos dentro da gente. É possível que essa criança queira imaginar possibilidades mais lúdicas de viver. Quando o adulto em nós estiver muito rígido e “totalitário”, talvez seja a hora de chamar a nossa parte criança para reaprendermos a escutar os nossos sonhos e, é claro, para reaprendermos a brincar, ainda que a realidade seja dura e cinzenta como a do personagem Rodolfo, pai do Manoel.
