Para começar a semana, quero falar de um livro fundamental nos dias de hoje: “Inteligência Artificial para Crianças”, da Editora Asinha. Escrito por Ricardo de Holanda Melo Montenegro e ilustrado por Matheus Furtado, o livro faz uma reflexão sobre o mundo digital. A história é contada por um robô e fala sobre a importância de haver um equilíbrio entre o virtual e o real, e também mostra o poder dos livros e da imaginação.

Já quero ler o livro com o meu filho! E para conhecer um pouco mais dessa obra tão especial, conversei com o autor. Confira!

CANAL INFANTIL – Como surgiu a ideia de escrever “Inteligência Artificial para Crianças”?

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – O fato que me marcou nesta caminhada de construção do livro foi um comentário feito por minha avó, aos 97 anos, que enfatizou “sentir-se invisível ao perceber que todas as pessoas presentes na sala de sua casa estavam ao celular (nas telas), sem a olhar, escutá-la ou percebê-la”. Esse mesmo cenário também se reflete na vida da criança com os pais.

Todavia, o que realmente me moveu foi o período durante e pós-pandemia, quando muitas crianças fizeram uma imersão inadequada nas telas. A situação em nossa casa não foi exceção. Em 2020, meu filho tinha 4 anos e passava mais de duas horas diárias em frente às telas. Para mim, um engenheiro de computação especialista em direito digital e proteção de dados, e para minha esposa, essa era uma fonte de grande preocupação e inquietação. A partir da vivência e de observações comportamentais diárias, acredito que a educação digital, midiática e o uso consciente das tecnologias pelas crianças são indispensáveis.

A sociedade hiperconectada e os nativos digitais precisam aprender a aprender; vivemos em um mundo novo. Todos nós precisamos voltar aos livros, de modo especial no ambiente digital, e também às leituras que geram multiculturalidade e pensamento crítico, não apenas ler “manchetes” ou títulos de posts nas redes sociais. É relevante aprender, ensinar e reaprender. E nada melhor do que um robô com Inteligência Artificial para explicar tudo isso e conquistar a criançada.

Assim nasceu o robô IÁ, um personagem cativante que faz um passeio pelo mundo tecnológico e reflete sobre seus impactos na vida e no desenvolvimento infantil nesta nova era da internet midiática, sem controle e sem regulação.

CANAL INFANTIL – Qual a faixa etária indicada?

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – O livro foi pensado para todos os públicos a partir de uma poética especial. Embora focado no público infantojuvenil, é também muito indicado para avós e tios que estão hiperconectados e que têm um tempinho para a leitura conjunta com seus netos e sobrinhos.

A estética filosófica criada pelo ilustrador Matheus Furtado foi muito lúdica. Levamos muito tempo para construir imagens tão simbólicas, ideais para o uso em sala de aula por professores e educadores digitais. Tanto nas imagens quanto na poética, há um “gatilho” que cativa todas as idades.

CANAL INFANTIL – Qual a importância de abordar esse assunto desde a infância?

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – Alinho-me aos posicionamentos técnicos dos pediatras Daniel Becker (@pediatraintegralbr) e Evelyn Eisenstein, da Sociedade Brasileira de Pediatria. Ressalto que temos que abordar e enfrentar o tema em casa e na infância. Não podemos deixar para mais tarde, “para depois”; é urgente. Apenas complemento que os pais e toda a família têm o papel principal: educar com amor é alertar e plantar sementes. A educação digital começa em casa e deve ser integrada à escola.

As escolas também precisam se abrir à educação digital. Não adianta proibir o uso de aparelhos e deixar as maiores dificuldades para os pais ou responsáveis em casa. Embora seja uma tarefa difícil, acredito que as escolas são o melhor ambiente para trabalhar o uso consciente das tecnologias e a educação digital e midiática, pois é nelas que estão os professores, os educadores por vocação e profissão.

Tenho acompanhado o tema e participado de vários eventos sobre o uso consciente de telas e tecnologias. Defendo que os pais apresentem o celular, o tablet ou a televisão conectada à internet como um instrumento para a educação digital, e não que apenas entreguem o dispositivo com vídeos no “play” para que tenham mais tempo livre. Essa atitude torna as pessoas de maior confiança da criança as maiores incentivadoras dos vícios digitais.

CANAL INFANTIL – Como usar a IA na infância de forma segura?

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – O uso de novas tecnologias na infância, entre elas a Inteligência Artificial, requer acompanhamento e estímulo à busca por novos conhecimentos. Minha sugestão é incentivar a criança a utilizar essas ferramentas para pesquisar temas livres, de acordo com seu interesse.

O tema “acompanhar” é crítico porque significa dispor de tempo. As famílias de hoje não são como as de antigamente: a forma de viver, trabalhar e se comunicar mudou muito, tornando muito difícil exercer controle no mundo digital. Antigamente, a comunicação entre crianças se restringia ao contato presencial. Hoje, porém, qualquer pessoa no mundo pode se conectar com seu filho em um jogo, chat ou rede social. Daí a importância de redobrar a atenção.

Acredito que o caminho mais seguro passa pela educação para o uso consciente das tecnologias. É fundamental ensinar a criança a pesquisar e a comparar as informações de um livro com as fornecidas pela Inteligência Artificial. É preciso ensiná-la a discernir a verdade do que é falso, o que é útil do que é inútil, o que é violência do que não é, e o que representa um risco. Sobretudo, é preciso mostrar-lhe como identificar e priorizar conteúdos digitais que promovem a paz e o
diálogo.

CANAL INFANTIL – Qual dica você dá para as famílias?

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – A recomendação principal é não permitir que crianças utilizem redes sociais, visto que a classificação do Ministério da Justiça e Segurança Pública é de “não recomendado para menores de 16 anos”. Outro ponto fundamental é entender que o tempo de uso de telas precisa ter limites, buscando seguir as orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria.

É importante lembrar que nesse uso se inclui o WhatsApp, cujo acesso por crianças muitas vezes passa despercebido. No entanto, esse aplicativo aumenta a exposição a riscos, pois pode imergir os jovens em uma “caverna digital”, onde o mundo virtual se torna mais atraente que a própria realidade. Como consequência, a criança pode preferir o isolamento digital a participar de brincadeiras e interações no mundo real.

Embora o WhatsApp ainda não seja regulamentado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, ele já funciona como uma rede social e, por isso, os pais devem ter o mesmo cuidado para proteger as crianças desse ambiente. É preciso monitorar, fazer verificações aleatórias nos chats (se utilizados), visualizar o histórico de acesso a vídeos e sites na internet, acompanhar o
comportamento e agir a qualquer sinal de alerta.

Com a experiência de quem também viveu essa fase e falando de forma realista — sem as desculpas compensatórias que nós, pais, às vezes nos acostumamos a usar para não enxergar e enfrentar o problema —, a abordagem que indico é estudar e ler junto no digital, impor limites de horários.

CANAL INFANTIL – Deixe uma mensagem para os leitores.

RICARDO DE HOLANDA MONTENEGRO – A forma como entregamos um dispositivo tecnológico às crianças tem muitas consequências. A solução talvez esteja na atuação conjunta: dedicar um tempo com o filho para fazer leituras digitais e mostrar sempre conteúdos educacionais.

O livro “Inteligência Artificial para crianças” busca fazer essa conexão entre os responsáveis e a criança, explicando que a inteligência artificial deve ser utilizada para o bem comum, para o estudo e a pesquisa.

O ciclo de aprender, ensinar e aprender é enriquecedor, e é justamente esse processo que a inteligência artificial tenta replicar da humanidade. Dessa forma, sugiro que a primeira impressão deixada ao seu filho seja a de que o dispositivo eletrônico é, antes de tudo, um instrumento de estudo e trabalho. Idealmente, o primeiro contato da criança com as telas e o mundo tecnológico deveria ser a leitura de um livro digital junto com os pais ou uma pesquisa que use a inteligência artificial de forma lúdica para enriquecer a experiência.

Biografia: 

Ricardo de Holanda Melo Montenegro, nasceu em João Pessoa, Paraíba. Seu primeiro despertar para o mundo da tecnologia começou ao fazer um curso de datilografia no Senac, em Mossoró/RN, e ao ganhar seu primeiro computador aos 13 anos. É graduado em Engenharia de Computação pela Universidade Potiguar, sob orientação do Prof. Dr. Antônio Campos (UFRN), também é advogado, com especializações em Direito Digital e Proteção de Dados (IDP), Direito Público (UCS/Esmafe-RS) e Direito e Processo Civil (ESA). Desde 2005, atua na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), participou de importantes projetos como a implementação da Portabilidade Numérica, o Plano de Ação de Combate à Pirataria Digital, a implantação do Whatsapp como canal de atendimento ao consumidor brasileiro e o projeto Estratégico de Alfabetização Digital da Anatel. Além disso tem atuação em movimentos sociais, foi premiado com o Prêmio Anatel de Excelência (2011), é conciliador voluntário na Justiça Federal (Paraíba) e pesquisador vinculado ao grupo de Filosofia do Direito e Pensamento Político do PPGCJ/UFPB sob coordenação do Prof. Dr. Newton de Oliveira Lima.

Contato: carolina.canalinfantil@gmail.com

Instagram: @canalinfantil

Facebook: @canalinfantiloficial