O ano está terminando… Mas as leituras não! E hoje que indicar um livro lindo e emocionante, que acabou de ser lançado pela Cepe Editora: “Coleção de sons de Cecília”.
Escrito por Renata Penzani e ilustrado por Lumina Pirilampus, o livro conta a história de Cecília, uma menina que teme a morte do avô, que está no hospital. Mas antes que o pior aconteça, Cecília descobre que a audição é o último sentido que deixa de funcionar no ser humano. E, a partir de então, ela decide levar todos os sons possíveis para o seu avô. Dessa forma, ele continuará vivo!
A menina separou sons de todo tipo na sua cabeça: gargalhada de bebê, soluço de criança, chuvisco no telhado, pássaro cantando e muitos outros… Até que ouviu sua mãe lhe chamar: “Filha, o vovô quer te ver”. E foi então que Cecília decidiu entregar o seu presente imaginário. Será que seu avô ouviu tantos sons? Será que ela conseguiu que seu avô continuasse vivo? Só lendo o livro para saber.
Mas posso dizer que é uma história linda e muito emocionante! Um tema difícil contado de forma leve e diferente! E conversei com a autora para conhecer um pouquinho mais dessa história.
CANAL INFANTIL – Como surgiu a ideia de escrever o livro?
RENATA PENZANI – Escrevi Coleção de sons de Cecília em meados de 2017. Era um conto, e ainda não pensava em transformá-lo em livro até agora, quando meu texto se encontrou com as maravilhosas imagens da ilustradora Lumina Pirilampus, que deu origem a uma outra história que não existia antes e, ainda bem, agora existe.
CANAL INFANTIL – Para qual idade é indicado?
RENATA PENZANI – Nesse ponto, concordo com a grande María Teresa Andruetto, estudiosa dos livros que eu admiro. Ela diz que, quando se trata de literatura infantil, importa mais o substantivo que o adjetivo. Como tantas outras, essa é uma história em diálogo com as infâncias, tanto as da criança quanto as que existem em todos nós, como um elemento discursivo, um modo de estar no mundo. Acredito que as narrativas abertas podem alcançar infâncias de 0 a 100 anos.
CANAL INFANTIL – Qual mensagem você quis passar com a história da Cecília?
RENATA PENZANI – Gosto de pensar nos livros como janelas abertas, o que cada um olhar é o que a história será. Essa é a beleza, uma vez que o livro já está circulando no mundo, não é mais meu nem da Lumina ou da editora. O que podemos fazer, como autores, é desenhar essas janelas com o máximo de abertura possível.
Então, posso dizer que Cecília escolhe expandir a nossa impossibilidade de prolongar a vida. Não podemos continuar as pessoas. Mas a ficção pode, então ela vai lá e faz. E nem falo só de quem partiu ou está perto de partir. Tem muita morte em vida também. Viver é um comprometimento difícil, que nem sempre é do acesso de todos; as misérias do sistema – e do corpo que tenta existir nele – são ardilosas, e a alegria não é de alcance fácil, é um cultivo. Nesse sentido, Cecília é uma conversa silenciosa de dentro para fora, uma tentativa íntima de dar vida ao que e a quem não teve.
CANAL INFANTIL – Qual a importância de um livro que aborda um tema tão difícil e delicado?
RENATA PENZANI – Entender por que morremos e o que nos acontece depois da morte, penso que essa é a grande questão “irresolvível” da humanidade, e por isso passamos tantas vezes por ela. Apesar das crenças milenares, das mitologias, da fé de todos os tipos e até das suspeitas mais céticas ou teorias racionais, ninguém pode saber – saber-mesmo – o que vai acontecer quando nosso corpo acabar. A história do nosso fim é uma ficção contada pelos outros. Nessa ausência de respostas absolutas a literatura se alimenta de perguntas e caminhos abertos.
CANAL INFANTIL – Deixe uma mensagem para os pais.
RENATA PENZANI – Humm, essa é difícil. Não sei se há “uma mensagem” que eu possa passar, ainda mais que possa ser especificamente para os pais. Um livro, sendo um objeto comunitário e compartilhado, se desdobra em caminhos imprevistos a partir da leitura de cada um que levar o livro a lugares que eu como autora nunca poderia imaginar sozinha. Mas acho que posso dizer que encarar o desafio de falar honestamente sobre aquilo que a gente não conhece é uma tarefa coletiva.
